O amor chega
como chuva breve de verão
molha a pele
perfuma a terra
e parte antes que o coração
aprenda a respirar sem medo
Nesse peito cauteloso
cada carinho é analisado
como quem segura vidro fino
com receio do corte invisível
As palavras mais doces
são recebidas devagar
não por falta de desejo
mas porque a esperança
ali, por vezes se interroga
Ama-se em intervalos
num dia
entrega-se o universo
em gestos pequenos
um olhar demorado
uma mão que fica
um silêncio confortável
No outro
erguem-se muralhas repentinas
portas cerradas
distâncias inventadas
para proteger cicatrizes antigas
que ainda sabem sangrar
Talvez chamem isso de frieza
mas não
é apenas um coração
que já caiu vezes suficientes
para aprender
que até a ternura
pode ter espinhos
Ainda assim
há beleza nessa intermitência
porque amar
mesmo desconfiando
é uma forma secreta de coragem
é acender pequenas luzes
num quarto onde o escuro
parecia jamais ver a luz.
Mário Margaride
12-06-2026

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