segunda-feira, 15 de junho de 2026

A INCERTEZA DO CORAÇÃO

 

O amor chega

como chuva breve de verão

molha a pele

perfuma a terra

e parte antes que o coração

aprenda a respirar sem medo

 

Nesse peito cauteloso

cada carinho é analisado

como quem segura vidro fino

com receio do corte invisível

 

As palavras mais doces

são recebidas devagar

não por falta de desejo

mas porque a esperança

ali, por vezes se interroga

 

Ama-se em intervalos

num dia

entrega-se o universo

em gestos pequenos

um olhar demorado

uma mão que fica

um silêncio confortável

 

No outro

erguem-se muralhas repentinas

portas cerradas

distâncias inventadas

para proteger cicatrizes antigas

que ainda sabem sangrar

 

Talvez chamem isso de frieza

mas não

é apenas um coração

que já caiu vezes suficientes

para aprender

que até a ternura

pode ter espinhos

 

Ainda assim

há beleza nessa intermitência

porque amar

mesmo desconfiando

é uma forma secreta de coragem

é acender pequenas luzes

num quarto onde o escuro

parecia jamais ver a luz.

 

Mário Margaride

12-06-2026


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